Meus Top 15 de 2025!
Meus top 15 de 2025!
Chegamos em 2026! Refletindo no último ano, tivemos vários lançamentos que ambos me surpreenderam, e outros que eu estava esperando faz tempo. Decidi expandir minha lista para 15 itens, mas mesmo assim deixei de botar alguns projetos aqui que foram muito especiais pra mim. Tem alguns EPs e outros projetos que eu queria inserir aqui para mostrar apreciação, então vai 5 menções honrosas de projetos que eu gostei muito, mas não encaixaram nessa lista por não ser álbum ou mixtape:
- EP 02 - EP - Paira
- Disk Mandy - Insomnia
- Marina Sena - Marinada Vol. 1
- Magdalena Bay - 8 Singles
- Clara Bicho - Cores da TV (esse estaria no top 5 se eu estivesse qualificando EPs)
Vamos pra lista! Agradeço pela atenção.
15. Wet Leg - Moisturizer
Começamos essa lista com um heavy-hitter. Acho muito bonito a jornada de Wet Leg, vindo de uma colaboração que era meio que uma última esperança para a Rhian na música, quem sabe se o self-titled delas não tivesse sido um sucesso, a Rhian não estaria trabalhando em marketing? Self Titled esse que foi um dos meus favoritos de 2022, com músicas incríveis como Chaise Longue, Ur Mom, Angelica e Too Late Now, todas com uma acidez irresistível que virou marca registrada da dupla, com um timing cômico ímpar. Praticamente uma Sabrina Carpenter sob efeito de heroína. Heroína britânica.
No segundo excerto do grupo, existe muito dessa acidez cômica ainda, mas claramente um romantismo escondido por ali também, músicas como pillow talk, pond song e u and me at home claramente vão para um caminho diferente de músicas como Wet Dream ou Piece of Shit. Essa doçura é expandida pela voz da Hester, que alivia bastante certas partes do álbum e contrasta muito bem com a voz da Rhian. Dessa mudança de tom há de se destacar pokemon, que além de ser uma música romântica cantada na voz da Rhian, conta com a presença de sintetizadores em arpejos que criam uma imagem sonora bem diferente para o grupo, mas muito bem vinda.
Em sequencia de pokemon, vem pillow talk, que trás uma mensagem ainda romântica, mas guitarras distorcidas vem como um whiplash para contrastar os arpejos de sintetizador da música anterior. Gosto muito desses timbres pesados na voz da Hester, que acaba criando uma imagem que se assemelha (me perdoem shoegazers) à da voz da Bilinda no My Bloody Valentine. Eu sou apaixonado na forma que a voz da Hester se encaixa nas composições da dupla, e gostaria que ela cantasse mais, mas entendo que ela normalmente fica na guitarra lead. No fim de tudo, apesar de um controle bem maior sobre dinâmica e potência, Wet Leg continua explosiva como nunca, e acho que independente de quaisquer circunstâncias, essa vai ser a realidade contanto que Rhian e Hester continuem na ativa, trazendo uma acidez indiscutivelmente britânica pro cenário musical, que já conquistou a todos nós.
14. McKinley Dixon - Magic, Alive!
McKinley Dixon não é nenhuma novidade para quem acompanha a cena do Hip-Hop. Em 2023, Dixon protagonizou o meu álbum de Hip-hop favorito com Beloved! Paradise! Jazz!? e verdadeiro às suas origens, voltamos com mais um projeto de Jazz Rap. Quando se trata deste subgênero, Dixon é um verdadeiro especialista, suas composições abrem espaço para que o rap dele compartilhe espaço com os metais, bateria e quaisquer outros elementos que ele decida que sirva a música, como muitas vezes vemos harpa, vemos também violoncelo, flautas e também samples, verdadeiro às origens do gênero.
Um tema comum ao McKinley Dixon e ao Jazz é a colaboração. Dixon valoriza muito o senso de comunidade que ele tem, desde Live! at the Kitchen Table até We're Outside, Rejoice! onde ele celebra estar com seus similares, além de estar durante o projeto todo utilizar vocais de coro para ressaltar o tamanho e o sentido de música ao vivo. Muitas vezes o álbum parece uma continuação natural do seu predecessor de 2023, com Watch My Hands mencionando a mesa da cozinha sendo movida para o lado de fora, Run Run Run Pt. 2 sendo uma continuação de sua contrapartida no projeto anterior, e temas parecidos.
Acredito que a maior expansão de Dixon para este álbum é uma expansão de repertório de instrumentos e um polimento da própria composição, que parece mais complexa e densa que em Beloved! Paradise! Jazz?!. Apesar disso, realmente muito dos elementos deste álbum pertencem ao antecessor, o que não é de forma alguma algo negativo, considerando que ambos acabam sendo projetos sensacionais e essenciais para o Jazz Rap, que espero que seja um gênero que volte com tudo, pois é uma das combinações mais naturais e poderosas que existem, e os resultados realmente se mostram nas mãos de quem sabe.
13. Twenty One Pilots - Breach
Aos que são familiares, a jornada de Twenty One Pilots e toda a saga que se iniciou com Trench parece até que eterna. Eu tinha 14 anos quando Trench lançou e essa jornada toda começou, agora aos meus 21. É praticamente o que eu conheço como adolescência como uma banda, e para um fim de uma jornada tão marcante, o mínimo que poderíamos pedir era um final épico e um álbum ótimo, que foi justamente o que nos foi entregue com o maior prazer do mundo. Em relação à história, é claramente um dom do Tyler Joseph nos manter impressionados ao mesmo tempo que tudo faz sentido com o que aconteceu anteriormente na história, com o mesmo nível de consciência sob o próprio universo que o Oda tem com One Piece. A conclusão da história consegue ser ao mesmo tempo que imprevisível, condizente com a mensagem do projeto como um todo e a sua relação com a psique humana.
Breach é claramente a banda no seu ponto mais estável sonoramente, o que pode significar várias coisas, tanto um output consistente e mais espaço para a expressão poética do Tyler Joseph, quanto uma certa previsibilidade. Os dois acabam sendo verdade, enquanto não necessariamente fazendo estas faixas qualquer coisa menos que espetaculares. Josh Dun continua se destacando álbum após álbum na bateria, inclusive com um trecho cantado em Drum Show, e o que vem me satisfazendo ainda mais por parte do Tyler tem sido o trabalho de sintetizador e ambientação. Muito disso vem também da colaboração dele com o Paul Meany, que é praticamente um coringa quando se trata de produção, mesmo que o Twenty One Pilots tenha quase que um monopólio sobre ele.
Um feito do Tyler Joseph pra Breach que acredito ser bem difícil de replicar, é fazer o piano, sem efeitos, um instrumento energético. Músicas como RAWFEAR e The Contract fazem isso muito bem e de forma inédita para a banda. Todo álbum eu também acredito e digo que "esse vai ser o álbum de guitarra do Twenty One Pilots, e apesar de ainda não ser verdade, Robot Voices tem que ser o melhor uso da guitarra elétrica pela banda até agora (perto de Shy Away).
Não posso falar desse álbum sem falar da sequência de One Way (uma sequel de Lavish), que liga com Days Lie Dormant com um áudio do Josh, até Tally, um excerto que parece tirado diretamente de Self-Titled ou Regional At Best. Esse trecho realmente parece uma celebração da jornada da banda até aqui. Sendo bem sincero, não sei o que aguarda a banda agora, espero que eles consigam um bom descanso com os 3 filhos do Tyler e a 1 filha do Josh. Se tivermos sendo deixados pra um hiato com Breach, estamos felizes!
12. Lucy Dacus - Forever Is a Feeling
Olha só, mais um álbum de um dos meus artistas favorites que me deu um dos meus álbuns do coração. Lucy Dacus se tornou recentemente e rapidamente uma das minhas vocalistas favoritas, após Boygenius, a quem eu fui atraído pela aposentada da Phoebe Bridgers. Escutando o the record, percebi que ele era facilmente meu vocalista favorito com minhas letras favoritas do trio. Apesar disso, nada me preparou pra experiência de escutar Historian pela primeira vez, quem dirá escutar Night Shift e Timefighter no mesmo álbum. Toda a discografia de Dacus tem sido ímpar, e nada mudou com Forever is a Feeling.
O terceiro de Dacus é leve, apesar de ainda se tratar de histórias, muito densas inclusive, são acompanhadas de violões, pianos e percussão leve. Limerence por exemplo é linda e leve, apesar de falar de medos tão sinceros e fortes. Essa perspectiva historiográfica para a poesia é algo muito especial no lirismo de Dacus, que se mostra em outros momentos de forma muito linda, como Come Out, Most Wanted Man e Talk, que traz um pouco dessa distorção que a gente via em projetos antigos dela.
Apesar de ser um projeto que se propõe a pouco, Forever is a Feeling é incrivel naquilo que propõe, me fez chorar algumas vezes quando lançou e ainda me emociona muito. Uma última que eu tenho é que se você vai fazer um projeto sem instrumentação diferenciada, você tem que se garantir ou na voz ou na poesia. Lucy Dacus impressiona na poesia, e faz isso como ninguém.
11. PinkPantheress - Fancy That
Her name is Pink and she's REALLY glad to meet you. Esse ano teve duas figuras que ganharam a internet (mesmo que a Pink já tenha ganhado meu coração faz tempo), essas figuras foram PinkPantheress e KATSEYE. Acontece que, felizmente a PinkPantheress faz música MUITO boa também. O meu primeiro contato com a PinkPantheress foi com Tinkerbell Is Overrated no Beatopia da Beabadoobee. Naquela música ela tinha só uma participação vocal, o que na minha opinião é uma redução de todo o potencial que a Pink tem como output artístico, dito isso eu gosto muito da voz dela naquela música!
Fancy That é dance pop da forma mais Pink possível. é um mixtape contínuo(ish?) com o conceito de Londres dos anos 2000. A estética dos anos 2000 sempre foi implícita na temática da Pink, mas Fancy That é um avanço bem específico, os samples de Stars e de Noises baseados em filmes/séries britânicas, e também pega um pouco do synthpop britânico em músicas como Nice to Know You com samples de cordas e uma temática mais pesadinha
Uma coisa que eu acho muito única nas construções da Pink são os layers que ela aplica nas composições, que mesmo sendo algo padrão no Pop, ela faz de uma forma muito fresca pro Pop atual, que me lembra um pouco NewJeans até (mesmo que ela tenha surgido antes). Claramente ela vem de referências bem Drum & Bass (que são bem óbvias em To hell with it, por exemplo), e a forma que ela enxerga percussão é bem fresca para o cenário do Pop atual. A escolha entre sintetizadores e samples parece inexistente pra ela, que faz os dois elementos parecerem óbvios juntos. O que essa menina faz com naturalidade no GarageBand eu não faço com 3 anos de faculdade de produção musical, e pouca gente no cenário consegue fazer com tanta eficiência. Deus abençoe vc, sua bolsinha e seu GarageBand.
10. JID - God Does Like Ugly
Como muitos de vocês, minha primeira impressão do JID foi em Enemy com Imagine Dragons, o verso dele em Enemy é MUITO impressionante, mas feat bom até a Ice Spice tem um. Após isso, ele provou ser o Real Deal com The Forever Story. Um álbum fenomenal, cheio de bangers e flows fenomenais do jovem rapper. Demorou 4 anos pra qualquer projeto novo dele, o que é uma linha do tempo longa quando se trata de Hip-Hop, mas muito bem justificada quando o resultado é God Does Like Ugly.
Nesse projeto, JID entrega tudo mais uma vez, e em um projeto ele captura e evolui o som de Atlanta, narrando sua jornada junto a colaboradores fenomenais como Westside Gunn, Clipse, Vince Staples e Don Toliver. O projeto como um todo é consistente pela visão artística do JID, que colabora com uma multitude incontável de produtores, mas com a presença central de Christo. JID narra também seu retorno ao cristianismo, seu presente na fama, seu papel no Hip-Hop de Atlanta e reflete sobre sua família. Além de falar rápido, ele claramente fala do coração e carregado de sentimento, músicas como VCRs e Of Blue mostram um sentimentalismo bem característico do rap da nova geração e remetente a artistas como J Cole. Sk8 claramente se destaca na tracklist, com uma batida do Kilo Ali energética e com 808s que dominam o registro.
Entre bangers e entregas líricas, JID continua se destacando no cenário do Hip-Hop e se mostrando um dos melhores da atualidade. Espero no futuro ver ele em alguma conversação de Goat, não é de se ignorar o domínio sob o flow e a velocidade pura dele. Além de ser extremamente habilidoso, ele tem tato lírico e social, sempre olhando para suas raízes em sua poesia.
9. Little Simz - Lotus
Little Simz é uma figura super subestimada do Hip-Hop. Claramente divide com a Doechii para melhores rappers femininas e uma das figuras mais impressionantes do Hip-Hop britânico. Lotus me pegou muito de surpresa como um daqueles projetos que não soam como nada que veio antes, ao mesmo tempo soa como algo que eu deveria ter escutado minha vida toda.
Um elemento constante do álbum que prepara tudo que vem em volta é o tom do baixo, super limpo e bouncy, tocado de forma deliciosa e leve, ao mesmo tempo que virtuosa. Em volta disso, vem a voz da Simbi, que encaixa perfeitamente nesse baixo e baterias pocket. Com tudo isso, é um álbum bem espaçado, poucos elementos em geral e elementos acústicos como violão, piano, violino tomam preferência em músicas como Free e Peace. O projeto tem uma sonoridade bem pesada junto do amplo uso da ausência de elementos, que abre um espaço ótimo para a expressão poética da Simbi. Lotus é um dos projetos mais liricamente densos da década e confessionais que saíram esse ano, músicas como Hollow e Only são um soco no estômago com letras sobre amor incondicional e sacrifício, mas também com músicas sobre desconfiança e traição daqueles mais próximos de você.
A constância de Lotus se mostra muito quando se trata de momentos como Lion, Enough e Young, músicas bem mais energéticas, mas que continuam com a mesma sonoridade espaçosa do restante do álbum, cuja energia emana muito do baixo e bateria, além da entrega vocal da Simbi e dos convidados. Em questão de convidados, é impossível não mencionar o dueto com Wretch 32, que narra a relação de dois irmãos que se distanciaram com o tempo. Amo que mesmo com o crescimento contínuo de Simz, ela continua verdadeira a suas origens, e suas colaborações são com outros rappers e cantores da área dela, ou em geral artistas menores mas que tem uma entrega impressionante no projeto sempre, como Obongjayar.
Mesmo com uma temática clara e sombria, com arranjos de cordas e pianos, ao mesmo tempo que certas entregas são bem pesadas, outras são divertidas. Nessas entregas, as temáticas são mais de independência e força. Um aceno especial a Young, uma música sobre crescer e que não te permite esquecer que ela é britânica, mas que ela também fala muito francês, oui oui oui.
8. Black Country, New Road - Forever Howlong
A primeira vez que eu escutei Black Country, New Road foi como um choque, eu não sabia que música podia soar assim. Isso foi com Ants From Up There numa cama da casa da minha vó em 2021, e de certas formas acredito que aquele momento marcou pra mim a vontade de escutar música de forma mais analítica, algo que eu já fazia com anime, por exemplo. Depois disso escutei For the first time, que virou quase que instantaneamente um dos meus projetos favoritos de todos os tempos. A banda mudou muito depois disso, com a saída de um dos melhores compositores da nossa geração, eles tinham que mudar. O primeiro projeto depois disso foi a turnê, que foi com ela que tivemos as músicas do Live at Bush Hall, e em vez de um vocalista, tinhamos três (na época) em Tyler Hyde do baixo, Lewis Evans dos sopros e May Kershaw das teclas, que protagonizou uma das minhas músicas favoritas de todos os tempos em Turbines / Pigs.
No terceiro álbum de estúdio do grupo, o tom muda bastante, se afastando significativamente daquele Art Rock pra um caminho mais Baroque Pop, uma mudança que claramente pode não ter agradado todo mundo, mas sinto que manter o mesmo som depois de tantas mudanças não faz sentido com a jornada da banda. Em Forever Howlong, há um senso de experimentação especial, que faz cada música ser uma jornada diferente, como Two Horses, que é a primeira música do grupo escrita e cantada pela Georgia Hellery, a violinista da banda (e metade do Jockstrap!), e a title track que contém todos os membros da banda em flautas tenores. Alguns momentos ainda são tão épicos quanto os momentos mais altos de Ants From Up There, como Nancy Tries to Take the Night, que contém instrumentos tocando em compassos diferentes, que causa um dislocamento constante na melodia, parecido com o que a banda faz na Intro de Ants From Up There. Eu não sei se tem algum outro artista ou banda que tem um poder de me me fazer comover de forma tão forte quanto BCNR faz em certas músicas. Eu sou um sucker para épicos e atualmente ninguém os faz como eles. A construção de tensão e resolução é perfeitamente equilibrada. Outra música que trás isso em mim é For the Cold Country, que concretiza pra mim a May Kershaw como meu membro favorito da banda e uma das minhas músicas favoritas.
Algo interessante ocorre também pela variedade de escritores, que trás uma imensidão de perspectivas, como Tyler cantando sobre um amor não reciprocado à sua melhor amiga, ou Mary, cantada por três vocalistas diferentes, que narra uma menina que sofre bullying na escola. A cola que permite que tudo isso aconteça de forma constante e trazer uma sonoridade bem característica do BCNR é o trabalho de James Ford, que trabalho a tempos com Arctic Monkeys, e garante que a sonoridade do projeto permaneça constante e linda durante toda sua decorrência, onde tudo realmente parece fazer sentido, e uma música com 5 flautas tenores faça sentido com uma cujo arranjo é explosivo e épico como Nancy.
7. Gaby Amarantos - Rock Doido
Quem diria que um youtuber gringo me apresentaria a um álbum de tecnofunk que viraria um dos meus favoritos do ano? Bem, eu diria, pois foi o Anthony Fantano que me apresentou a Ana Frango Elétrico também. Para além disso, conheci Gaby Amarantos e o milagre que é o tecnofunk. Nunca antes havia me aparecido um álbum com tanta personalidade e energia que só o Pará pode proporcionar. Hoje em dia esse álbum é música para botar nos stories, na rádio do carro com os sogros e a trilha sonora PERFEITA para limpar a casa e fazer academia. E me dá vontade de ir pro Pará curtir um rock, a única artista que me fez ter tanta vontade de ir pro Pará foi a Joelma. E ela é governadora do estado.
Rock Doido não tem medo de se apropriar de contextos e culturas de todo lugar. Na primeira música você escuta samples de Valorant, enquanto na música seguinte tem referência a música egípcia (de filme). Nesse sentido, esse sim é um projeto "brega" sem medo nenhum. Acho que nesse sentido só o Brasil realmente pode proporcionar tais sonoridades, incluindo as letras mais tradicionalmente bregas, como "pela internet nosso amor flopou". Amarantos é, na nossa geração, um ícone do tecnobrega, somando aos nomes de Viviane Batidão e Tonny Brasil. Apesar de ter uma formula bem redondinha de criar a batida por volta do "drop", é o que acontece em volta desse batidão que mostra o artesanismo de Gaby, em criar texturas e identidades variadas dentro de um gênero que limita bastante em questão composicional.
Amarantos consegue fazer arte dentro de 20 músicas. Uma mensagem gigante que o brega não tá morto, e que a vida não precisa ser tão pesada quanto ela é. Talvez eu não seja o tipo de pessoa a quem a mensagem se direciona, mas ao ter me contemplado com ela, eu não poderia ter ficado mais feliz. Acima de qualquer coisa, cabe um tipo de autocrítica, sobre como nós críticos brasileiros nos focamos muito em gêneros que não tem muito a ver com a brasilidade, e nos aproximamos de gêneros que, mesmo que produzido por brasileiros e com certeza adaptado à realidade brasileira, não é um gênero nosso. Louvaremos o tecnobrega, o axé e o Brasil, que tem gêneros a oferecer ao mundo, não só artistas.
6. Yasmine Hamdan - I Remember I Forget
Um dos meus objetivos esse ano era diversificar minhas linguagens, pra além do inglês, português, espanhol, etc. Eu sinto que foi um fracasso em sua maioria porque ainda não tenho muitos álbuns que eu amo em outras línguas, mas um resultado positivo disso foi descobrir Yasmine Hamdan, uma Libanesa com uma voz de tirar o fôlego, que está no seu quarto lançamento e finalmente recebeu um reconhecimento do ocidente, inclusive de mim. Se já é raro um artista de língua como italiano, francês ou português quebrar a bolha da música ocidental internacional, isso ter acontecido com Yasmine Hamdan já é uma grande conquista, mesmo que em pequena escala. O trabalho que sai disso é ainda mais impressionante e rico, com uma mistura de elementos da música tradicional árabe com o pop contemporâneo
Pop em arábico é bem diferente da música árabe estereotípica, nem toda música soa como Aifa Oil, mas há claramente elementos similares. A escala árabe sendo um elemento clássico disso, a forma que a Yasmine canta é baseado na escala árabe, unindo uma escala incomum para os nossos ouvidos com uma vocalista com timbre delicioso resulta num vocal incrível. Este vocal é acompanhado por uma produção bem criativa e expansiva, que me lembra muito o trabalho de artistas como Imogen Heap. Apesar de ser uma sonoridade bem espaçada, similar a Lotus que eu mencionei anteriormente, a diferença vem na riqueza de elementos. O sintetizador é usado em pelo menos 10 camadas simultâneas, com timbres tradicionais mas também simulações de sonoridades bem tradicionais árabes. Aqui claro que minha análise vai acabar me falhando devido à minha falta de repertório, mas é uma sonoridade rica e diversa, que cria uma ambientação bem calma, mas também poderosa.
A riqueza de elementos das músicas de Yasmine Hamdan não para somente nos sintetizadores, há um uso bem contínuo e rico do violão acústico, além de uma série de percussões muito bem pensada e construída. Essa ambientação passa por vários momentos através do projeto, com momentos mais acelerados como em Shmaali, mas também shows épicos como The beautiful losers. O projeto é carregado de momentos musicais especiais, como a música título do álbum, I remember I forget, que tem um riff de violão extremamente energético, com uma série de percussões que parece que você está no meio de uma roda de dança. Espero ver muito mais de Yasmine no futuro, e espero que a música árabe entre no nosso cotidiano, pois há muita excelência composicional e de produção escondida.
5. Rosalía - Lux
Eu amo a jornada artística de Rosalía. É claro pra mim que ela é uma das poucas artistas no mainstream que faz música puramente por satisfação pessoal e por pesquisa(!). De um álbum capitular baseado na música medieval escrito para um TCC, para um álbum puramente influenciado pelo reggaeton. Em Lux, Rosalía explora uma obsessão pela música erudita e o canto lírico. Normalmente eu diria que não manter sua essência é algo negativo, mas para Rosalía não existe algo único para se chamar de essência além da voz incrível dela, que em Lux pode ser descrita como divina.
Claro, apesar de mencionar música erudita e canto lírico, Lux nem sequer se encaixa nestes critérios, se encaixando no critério (extremamente vago) de Art Pop. O uso extensivo de orquestras em músicas como Porcelana, se mistura com um 808 em saw wave. Esse não comprometimento total é o que torna Lux algo único e completo, que permite Berghain coexistir com La Perla. É claramente um projeto muito proposital, e ímpar no esquema geral da música Pop moderna, e ocupa um espaço interessantíssimo na narrativa musical de 2025.
Rosalía tem um tato muito claro para hooks criativos mesmo nos mais adversos dos arranjos, isso é óbvio pra mim na percussão de Divinize. La Perla é um dos meus takes favoritos, sendo bem mais palpável e digestível que boa parte do resto do álbum, com um foco muito maior do violão naquele ritmo clássico do 3/4, com uma letra bem mais satírica, com um trecho falado que acho uma gracinha. A música trata de um ex-amor e sobre o quão ruim ele é como pessoa. La Madrugá também me impressiona muito, é intensa na medida certa com a orquestra de cordas acompanhadas e a intensidade da percussão em palmas, como se fosse um flamenco, fazendo referência à sua própria Espanha. Mesmo com suas 8 línguas, arranjo imenso de orquestra, vocais explosivos e produção expansiva, Lux te pega naquele vocal suave da Rosalía em La Yugular, nas palmas percussivas, nas partes faladas. É muito bom saber que temos uma artista como ela, alguém que quer atravessar um milhão de portas.
4. Clipse - Let God Sort Em Out
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Os confesso que fui conhecer Clipse agora com Let God Sort Em Out. Conhecer Pusha T e Malice individualmente é inevitável, principalmente Pusha com seu verso icônico em Runaway de Kanye West e DAYTONA, e Malice com suas músicas que falam MUITO sobre usar drogas. Essa foi minha expectativa ao me deparar com Let God Sort Em Out, e acredito que seria a mesma expectativa, se não até maior se eu tivesse escutado Hell Hath No Fury antes desse álbum. Escutar "The birds don't sing, they screech in pain" pela voz do John Legend definitivamente não é como eu esperava começar um álbum do Clipse.
Apesar desse choque de realidade, o LP é fácil de analisar e resumir: barras sinistras e batidas ferventes. Chains & Whips é focado em uma batida bem focada de Pharell Williams, com um bumbo e um baixo e uns efeitos bem de background, enquanto isso Pusha, Malice, Pharell e Kendrick falam sobre a riqueza como um assunto sufocante que te prende e te pune, como correntes e chicotes. Um highlight óbvio do álbum todo é Ace Trumpets, a batida de Pharell é eletrizante e os versos do duo são tão suaves, fluindo de uma forma perfeita. De certa forma, o que brilha os olhos em Let God Sort Em Out é a pureza do hip-hop perfection (conceito que estou coining agora), não é necessário muito mais do que versos extraordinários e a batida perfeita pra concretizar uma obra prima.
Na simplicidade e no sentimentalismo, Clipse te leva pra onde você quer ir. Te diverte para um caralho e retorna uma jornada de irmãos que viveram muita coisa juntos. Diferente do Clipse antigo, o novo é muito mais sentimental e emocionalmente sincero. Malice impressiona muito mostrando um lado dele que não aparece muito em sua própria carreira solo ou nos projetos antigos do Clipse. Espero ouvir mais principalmente dele no futuro, e que ele traga essa mesma energia para energias futuras.
3. terraplana - Natural
Minha bandinha indie, meus pais, meus orgulhinhos... Um som tão apaixonante que sai das vozes e instrumentos de terraplana, em um resgate profundo do Shoegaze de my bloody valentine e Slowdive em olhar pra trás, a banda conquistou a cena indie curitibana e posteriormente brasileira, com shows de abertura para o próprio Slowdive, Balaclava Fest e diversos outros shows que os consolidaram. Inegável era um follow-up de nível igual ou superior, dado que a banda não teve descanso desde olhar pra trás, e a sinergia crescia conforme os dias. Seu segundo, natural, é exatamente o que deveria ser. Além de manter suas bases de shoegaze, há uma expansão natural, tal qual o título do álbum, tanto composicional, lírica quanto texturalmente.
Um ponto de destaque do álbum é, assim como seu antecessor, seus hooks bem estruturados, que dentro de uma realidade de shoegaze é essencial para diferenciar bons projetos de projetos medianos. "todo dia" é um exemplo de uma música que se constrói primordialmente com base no riff principal. Uma outra questão relativamente nova para a banda, que é totalmente um ponto positivo para o projeto, é um protagonismo maior para os vocais do Vini, que trazem um contraste dissonante e ímpar ao vocal limpo e angelical da Steph (similar ao contraste entre Kevin e Bilinda do mbv), vocais da Steph esses que nesse projeto se vira mais ainda para o agudo, e sua voz parece em muitas músicas totalmente diferente do que ela soava em olhar pra trás. Acredito que isso venha de uma posição de maior conforto dela em assumir o papel de vocalista para além do baixo. Hear a Whisper com Winter mostra isso de uma forma bem intensa, onde os vocais da Steph se enxugam num ritmo mais corrido que o normal, que me lembra também meus passos com shower curtain, um dos meus singles favoritos de 2023.
É muito bom ver que terraplana não foi só um tiro de sorte, mas sim um grupo de pessoas com output artistico consistente e ambições que corresponda aos pontos fortes deles. Brevemente após o lançamento de Natural, terraplana participou de diversas performances pelo South By South West, assim como participou do Audiotree. Recentemente a banda foi anunciada no Lollapalooza 2026. Mal posso esperar pra ver o que o grupo tem a aprontar nos próximos anos.
2. Marina Sena - Coisas Naturais
Minha maior surpresa esse ano foi abrir o Twitter após um dia de trabalho e ver todo mundo falando sobre como Marina Sena havia lançado o álbum do ano. No caminho pra faculdade, dei uma chance pra moça do Ombrim e Por Supuesto se provar, e ao terminar o álbum eu procurei incansavelmente por alguém que tenha escutado o álbum também pra eu poder conversar sobre. Acho que no fim do dia nada me impressiona mais do que uma mineira que parece que escreve todas as suas músicas de frente pra uma praia. Realmente, se dessem uma praia pro mineiro, ninguém iria querer morar em outro lugar.
Coisas Naturais é rico. Isso significa muitas coisas diferentes em contextos diferentes, como o fato que Lua Cheia é uma música muito chique, tal qual Desmistificar é transcedental e rica em elementos. Marina Sena se banha na própria intimidade, cantando sobre as formas que o amor a faz sentir que só existe ela e seu par no mundo em Numa Ilha, tema contínuo que entra em embate com sua própria liberdade sexual, que ela aborda em Anjo de uma forma muito gostosa, onde ela reconhece que, mesmo obcecada por seu par, ela é alguém por si só e não pertence a ninguém, isso sob uma guitarra distorcida e um órgão fenomenais. As texturas do projeto são muito especiais, como o reco-reco em Sem Lei, que combina com um arranjo de percussões e sopros, e o timbre parecido com um celeste em Lua Cheia, que realmente trás aquela noção etérea junto do 808.
O momento que me fez ter certeza que esse álbum estaria nesta lista, bem alta, é a sequência de Mágico, que é minha música favorita da carreira da Marina e provavelmente música favorita do ano, até Ouro de Tolo, passando por Doçura, que tem um sample genial de Casa Santa do Grupo Raízes, CARNAVAL que é um trecho que te deixa extremamente triste por ter apenas 1 minuto e 13, e o álbum encerra com uma canção muito pessoal em Ouro de Tolo, onde parece que ela tá escrevendo um capítulo de um diário, sobre um término bem conturbado. O álbum termina com um poema ainda mais indulgente, onde Marina utiliza esse término para mostrar como ela é mais importante que um relacionamento, e que ela se engrandece de forma espontânea, como se não tivesse obrigação de ser um poema, só acabou sendo. No fim acredito que essa espontaneidade é o que define Marina Sena, que desenha agora uma carreira extremamente chique e expande seu repertório de forma maravilhosa.
1. Hayley Williams - Ego Death at a Bachelorette Party
Como normalmente acontece nessas listas, o meu top 1 continua não sendo surpresa pra ninguém: Se Hayley Williams ou Paramore lançam, provavelmente vai ser meu Top 1. Os projetos de Hayley Williams sempre ocuparam um espaço muito especial pra mim. O rollout e o resultado de Petals for Armor foram tema pra mim em 2020 e durante toda a pandemia, enquanto FLOWERS for VASES / descansos foi uma das melhores montanhas russas que eu experienciei em 2021. Além de ser um projeto muito sincero e expositivo de todas as qualidades de Hayley como compositora, Ego Death At a Bachelorette Party é livre pra ser exatamente o que Hayley sempre sonhou em compor, livre do contrato da Atlantic Records. Essa liberdade não se mostrar tanto em primeiro plano, com exceção da denúncia imensa ao fundamentalismo religioso cristão e gentrificação que é feita por Hayley em True Believer e da menção ao bar de um cantor de country racista na title track (que no caso é Morgan Wallen, mas ela poderia citar pelo menos 20 artistas diferentes em que essa frase se aplicaria). Dito isso, a liberdade que Hayley ganha ao sair de sua gravadora se mostra no rollout do álbum — que foi fenomenal, diga-se de passagem — onde Hayley usa sua marca de cabelos, Good Dye Young, para distribuir códigos que levavam a um site com arquivos wav de 17 músicas, que seriam posteriormente lançadas como singles nas plataformas de streaming, sem ordem definida. Após isso, Hayley incentivou campanhas para que os fãs decidam a ordem das canções do álbum, que ela usaria posteriormente para fazer a própria sequência e lançar como um álbum.
O resultado dessa brincadeira foi Ego Death at a Bachelorette Party como conhecemos. O projeto no fim do dia se trata de um álbum bem pop, com canções que focam nas camadas de sintetizador com guitarra, como Whim e Love Me Different, mas também canções que parecem tiradas de sessions do Paramore, como Ice In My OJ e Mirtazapine com guitarras até mais energéticas e distorcidas do que aquelas em This Is Why. Acredito que isso seja influência não da era antiga do Paramore, mas de outras bandas que Hayley acompanha, como Pierce The Veil e Tursnstile. Outro lado desse álbum, que aparece principalmente na sua segunda metade, são canções pesadas com um foco maior no grave, tanto instrumental quanto no vocal. A maioria delas com temas de amor mas de uma forma distorcida. Dou ênfase em Dream Girl In Shibuya, que ela trata aquele amor que se partiu como um amor a ser recuperado, como se ela estivesse implorando para que seu par volte e fique com ela, assim como em Discovery Channel, que utiliza a intimidade física para esconder as dores internas de um relacionamento partido. Isso culmina em I Won't Quit On You, que era a última música das 17 originais, falando de como ela não vai desistir dessa pessoa, independente do quanto isso a machuque. As músicas que fogem disso também tem temáticas pesadas, nominalmente True Believer, que acompanhada de um arranjo também intenso e cheio de intensidade, que é uma análise ao estado político do Estados Unidos e de Nashville, falando do fundamentalismo religioso da região e como a igreja é hipócrita com aquilo que prega em relação à bíblia.
O álbum termina com 3 músicas inéditas lançada após as primeiras 17, que completam o ciclo de Ego Death. Parachute fala de seu ex relacionamento de forma retrospectiva e nostálgica, imaginando uma história de herói onde ele a salva do seu casamento de anos. Good Ol' Days aborda a nostalgia e a forma como ela hoje em dia vê uma das piores épocas de sua vida como os dias bons, e como ela queria voltar pra aquela época. Showbiz encerra o álbum com um dos melhores instrumentais da carreira da Hayley Williams, refletindo sobre seu relacionamento em relação com sua carreira, com as escapadinhas em turnê que ela mencionou antes. Ego Death é facilmente meu álbum do ano, mesmo que eu tenha o conhecido como 17 singles. Espero o retorno do Paramore para minha felicidade, mas para a felicidade de vocês, esperem que eles demorem para lançar algo para vermos artistas novos no meu top 1.

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